quinta-feira, 4 de julho de 2013

VIDA MILICIANA




 “A gente cansa de atender locais de morte, é triste, deprimente”.
Já me deparei com mães que, contrariando ao isolamento do local de crime, se abraçavam com seus filhos mortos ensanguentados.
Já cansei de sentir cheiro de sangue e pólvora.
Cansei de perder noites de sono lutando com meus fantasmas.
Também não trabalho na mesma cidade que moro, pra proteger meus entes queridos. E já deram tiros na minha casa na madrugada.
Já tive que procurar um psiquiatra que me diagnosticou com Síndrome de estresse pós-traumático, que é uma doença de guerra, e me tratei disso.
Ainda me faltam pouco mais de 8 anos de serviço e estou cansado disso, estou cansado dessa guerra que já está perdida por culpa dos políticos que não sabem fazer leis que protejam nosso povo e só acobertam mais ainda os criminosos, tão cheios de direitos.
Tem horas que desanima, e desanima muito, pois as pessoas além de não reconhecerem o quê nós fazemos, ainda criticam quando fazemos até o certo, e muito mais quando erramos.
Essas pessoas não sabem que quando estamos em ação, temos pouco mais do que uma fração de segundo para pensar no quê fazer e como fazer, sem ferir pessoas inocentes. Enquanto um juiz leva anos para julgar a mesma ação.
Essas mesmas pessoas não sabem os sacrifícios que fazemos para protegê-las. Quantos natais passamos longe das nossas famílias. Quantos aniversários dos nossos filhos que não podemos estar com eles.

Eu mesmo não lembro quando foi o último aniversário da minha filha em que estive com ela. Essa é pra todos que vão fazer o concurso pelo salário e instabilidade sem ter vocação. Se com vocação para ser policial eu estou assim, imagina quem não tem?

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