“A gente cansa de atender locais de morte, é
triste, deprimente”.
Já me deparei com mães que,
contrariando ao isolamento do local de crime, se abraçavam com seus filhos
mortos ensanguentados.
Já cansei de sentir cheiro de
sangue e pólvora.
Cansei de perder noites de sono
lutando com meus fantasmas.
Também não trabalho na mesma
cidade que moro, pra proteger meus entes queridos. E já deram tiros na minha
casa na madrugada.
Já tive que procurar um
psiquiatra que me diagnosticou com Síndrome de estresse pós-traumático, que é
uma doença de guerra, e me tratei disso.
Ainda me faltam pouco mais de 8
anos de serviço e estou cansado disso, estou cansado dessa guerra que já está
perdida por culpa dos políticos que não sabem fazer leis que protejam nosso
povo e só acobertam mais ainda os criminosos, tão cheios de direitos.
Tem horas que desanima, e
desanima muito, pois as pessoas além de não reconhecerem o quê nós fazemos,
ainda criticam quando fazemos até o certo, e muito mais quando erramos.
Essas pessoas não sabem que
quando estamos em ação, temos pouco mais do que uma fração de segundo para
pensar no quê fazer e como fazer, sem ferir pessoas inocentes. Enquanto um juiz
leva anos para julgar a mesma ação.
Essas mesmas pessoas não sabem os
sacrifícios que fazemos para protegê-las. Quantos natais passamos longe das
nossas famílias. Quantos aniversários dos nossos filhos que não podemos estar
com eles.
Eu mesmo não lembro quando foi o
último aniversário da minha filha em que estive com ela. Essa é pra todos que
vão fazer o concurso pelo salário e instabilidade sem ter vocação. Se com
vocação para ser policial eu estou assim, imagina quem não tem?

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